Willy Zumblick“Minha história começa antes mesmo do meu nascimento. Começa quando o alemão Roberto Zumblick foi contratado por uma firma brasileira, de Brusque, para fabricar relógios, arte da qual era técnico.

Decorridos seis meses de trabalho e estadia e Brusque, deveria ele retornar para acompanhar o embarque de equipamentos e peças destinados à montagem da fábrica de relógios. Porém, antes de retornar à sua origem, a Alemanha, resolveu saciar seu desejo e viajar para o Sul do Estado de Santa Catarina para conhecer as cidades de Laguna e Tubarão. Encantou-se com a cidade de Tubarão e nela foi ficando. Por volta de 1902, estabeleceu-se comercialmente, abrindo na cidade, na rua Coronel Collaço, a tradicional “rua da igreja”, a Relojoaria Zumblick. A competência do relojoeiro, a seriedade do negociante e a integridade do cidadão tornaram-no respeitado por toda a sociedade local.

Certo dia, numa noite festiva da sociedade tubaronense, conheceu a pessoa que viria a se tornar sua esposa: Ida Furghesti, minha querida mãe. Do casamento nascemos Walter e eu. Nasceu também o Geraldo, nosso irmão que habitou este mundo por apenas alguns dias.

A preocupação maior dos meus pais era legar-nos boa educação. Walter, meu irmão, realizou seus primeiros anos de estudos no Colégio São José, de Tubarão. Seguiu no Colégio Catarinense, em Florianópolis.

Eu também estudei no Colégio São José, onde consegui formação primorosa.

Embora não tenha antecedentes artísticos na família, foi no Colégio que se manifestou o meu gosto e o jeito pela pintura e onde a arte, em mim, começou a ganhar forma. Irmã Isidória me pedia sempre para fazer desenhos no quadro negro, em sala-de-aula, e meus trabalhos eram mostrados como exemplo aos demais alunos.

Aos poucos fui crescendo e, comigo, a minha arte. Aos 15 anos, já me considerava “um artista”. Nessa época, meu pai começou a me ensinar a arte de relojoeiro, como desmontar, consertar e montar relógios. Mas o meu sonho, e desejo, não eram os relógios. E sim o mundo. Queria viajar, conhecer lugares. Admirava os motoristas de caminhões, pois eles podiam andar pelos lugares, pelo país. Quis ser um deles.

Continuava pintando. Fui chamado para elaborar os cartazes de anúncio do cinema e também passei a trabalhar como operador do projetor de cinema. Passei também a realizar as decorações das festas no nosso Clube 7 de Julho, da nossa Tubarão. Assim, minha arte tornou-se conhecida, consagrada na cidade.

Os cartazes que produzia para o cinema, com imagens dos artistas, na época famosos, extraídas de cenas das fitas, que ficavam nas calçadas promovendo as sessões, eram muito apreciados e, muitas vezes, levados pelas pessoas, tamanha era a admiração.

A pintura passou a prevalecer em minha vida até que, inviabilizado o meu sonho de me tornar caminhoneiro e como meu pai não possuía empregados na loja e o trabalho se intensificara, resolvi atender seu chamado para aprender o ofício de relojoeiro. Passei, então, a trabalhar na loja de meu pai. No entanto, não deixei de lado os amigos, os saraus, o cinema. Ah! E havia, ainda, a minha orquestra, de nome “A Goteira”, com a qual abrilhantávamos as festas e os bailes de carnaval do Clube 7.

Mantinha-me com o que ganhava com meu trabalho na Relojoaria, mas a pintura, aos poucos, foi sobressaindo. Passei a vender meus quadros para além de Tubarão.

Aos vinte e três anos de idade, isso em 1937, casei-me com Célia, filha de tradicional família tubaronense, amor supremo de minha vida, companheira inigualável, que me deu cinco filhos, e com quem constituí sólida família. Com Célia, a maior incentivadora, minha carreira de artista plástico ganhou extraordinário impulso e grande produtividade.

Em 1939, realizei minha primeira exposição individual, aqui mesmo em Tubarão. Nela já mostrava o tema que viria a me acompanhar por toda a vida: Bandeira do Divino. O êxito alcançado encorajou-me a mostrar meu trabalho na Capital do Estado, onde fui muito bem recebido, com o público demonstrando surpresa com a arte do jovem talento vindo do interior. Daí em diante, muitas foram as exposições, no Estado e fora dele.

Em 1946, inquieto e desejoso de novos horizontes, decidi por mostrar meu trabalho na cidade do Rio de Janeiro, então Capital da República. Ousadia extrema deste artista vindo do interior de Santa Catarina, da pequena Tubarão. Aluguei um salão na ABI - Associação Brasileira de Imprensa - e, sem padrinhos e sem qualquer publicidade, por cerca de dez dias, expus minha arte, representada por sessenta telas. O desconhecido interiorano, sem qualquer escola, surpreendeu a sociedade e a crítica carioca. Dessa ousadia e em poucos anos seguintes alcancei prestígio e confiança, a ponto de ter sido distinguido com “Diploma de Mérito” da Sociedade Brasileira de Belas Artes.

Essa exposição, no Rio de Janeiro, posso qualificar como o marco que me levaria à consagração nacional.

Para um artista do interior, como eu, nada foi fácil. Vencer a barreira da chamada “cultura acadêmica”, existente em todos os lugares, mais forte nos grandes centros, tornou-se o maior desafio para conseguir “permissão” para expor meus trabalhos. Quantas vezes tive que me resignar e tolerar que inspecionassem minhas telas com antecedência para obter “licença” para expô-las. Mas tudo superei com persistência e confiança.

A minha vida, assim como a arte, não podem ser dissociadas da minha amada Célia. Com ela formei muito mais do que uma sociedade conjugal e constituí uma família. Compartilhei a vida. Junto de todos os meus passos estão os dela. Meu crescimento enquanto pessoa em muito devo à Célia. À formação que recebi dos meus pais e a ela. A paciência e dedicação com que sempre me tratou, a “cobertura” que dava às minhas ausências da loja comercial para trabalhar a arte e, principalmente, o incentivo, foram fatores decisivos para que mais produzisse e me tornasse conhecido. Além de incentivadora, foi ela, também, crítica severa e tenaz da minha arte.

Tivemos, eu e Célia, cinco filhos. Dedicamos-lhes o nosso amor, cuidados e exemplos, de forma a torná-los pessoas de bem e cidadãos responsáveis.

Assim minha vida ganhou impulso, chegando a consolidar-me como cidadão, comerciante e artista sob sólida base familiar.

Nunca freqüentei qualquer academia de artes e tampouco freqüentei meios artísticos. Pouco me ausentei da minha cidade e do meu Estado. Jamais cruzei as fronteiras do meu País para qualquer viagem ao estrangeiro. Fiquei sempre na minha Tubarão onde, por mim, aprendi meu ofício e desenvolvi o talento com que Deus me dotou. Este Ser Supremo, alias, que me sustentou na fé, me deu prumo e rumo na vida e energia para vivê-la.

Dediquei-me também ao ofício de relojoeiro e ótico, aprendido com meu pai e dele herdado. Assumi as atividades do comércio na loja aberta em 1902 e que perdurou durante a minha existência.

Trabalhei ao longo de toda a minha vida, mas nunca deixei de pintar. Produzi muitos trabalhos artísticos, entre telas, painéis, esculturas. Não sei quantos.

Participei, efetiva e ativamente da vida comunitária e social na minha querida cidade de Tubarão, onde nasci e sempre vivi. Sempre fui preocupado com meus semelhantes e procurei ajudar quem de mim precisou. Fui ativo nas causas sociais. Inconformado, cheguei a ser candidato a prefeito, imaginando poder resolver os problemas sociais que sempre se arrastam sem solução. Não consegui eleger-me e percebi o quanto me enganara. Nunca mais me envolvi com a política, mas prossegui participando da vida sócio-comunitária, dedicando-me à busca de soluções às causas que visassem o bem-comum.

Pelo lado artístico, exerci temática variada e abrangente. Registrei em telas temas e cenas da religião, destacando-se aqui as célebres “Bandeiras do Divino”, que sempre foram a minha paixão e inspiração permanente. Não conheço e não creio que outro pintor tenha dedicado toda uma vida, como eu, pintando Bandeiras do Divino.

Registrei em telas aspectos da História Catarinense, a Cultura Popular. Fiz Retratos, Carrancas, Monumentos, Murais. Desenhei e presenteei, com muita satisfação, sob a forma de caricaturas, personalidades e pessoas amigas. Ilustrei livros e contos.

Recebi honrarias, comendas, títulos, homenagens. Muito escreveram sobre a minha pessoa e a minha arte, com referências elogiosas que caracterizo como “coisas dos amigos”, não que tenha merecido tanto. Eu mesmo atrevi-me a registrar no papel histórias principalmente relacionadas à minha arte. Algumas dessas histórias estão no livro “Entre Penas e Pincéis”. Outros dois livros perenizam a minha vida e arte: Lélia Pereira da Silva Nunes escreveu “Zumblick – uma história de vida e de arte”. Volnei Martins Bez, Valmiré Rocha dos Santos e Carlos Rocha escreveram e produziram “A Arte de Zumblick”, mostrando, como nunca antes fora feito igual, a minha produção artística, proporcionando-me um dos mais especiais momentos da minha vida, então já com a saúde sob cuidados.

Com a idade avançando, já além dos oitenta, aposentei-me dos trabalhos na loja, estes delegados a um filho e um neto, que dá prosseguimento à tradicional atividade iniciada pelo meu pai antes mesmo de eu existir.

Durante toda a minha vida dediquei-me com especial interesse e paixão também a atividades civis e sociais. Além da profissão de relojoeiro e ótico, artista plástico e a vida familiar, o Clube 7 de Julho, do qual fui presidente, o Grupo Escoteiros e o Rotary Clube completaram a minha existência.

Perto de alcançar 87 anos, isto no ano 2.000, tive realizado o sonho que acalentei durante décadas, com a inauguração do Museu que recebeu o meu nome, implantado na praça que tem o nome do meu irmão, o historiador Walter Zumblick, bem no coração da cidade de Tubarão, onde estão permanentemente expostas setenta e duas telas e pequenas esculturas, instrumentos de trabalho, objetos e comendas.

Parei de pintar nesse mesmo ano, após setenta e cinco anos, por imposição médica em face da toxicidade das tintas que me afetavam a saúde.

Em 2005 perdi minha metade mais preciosa. O meu Anjo da Guarda na terra partiu para junto dos Anjos Celestiais ao encontro do Pai. Com ela foi todo o meu ânimo. Deixei de sentir a vida por aqui. Nada preencheu o espaço que em mim deixou. Aos poucos fui desligando-me de tudo aqui na terra. Já não importava a arte. Nem a vida. Enfraquecido e com apenas resquícios de consciência, por volta das 21 horas do dia 03 de abril do ano 2008, convocado pelos Anjos e Arcanjos para outras dimensões, fui ao encontro do “meu Anjo” e, definitivamente, assumi o posto de Porta-Bandeira na Brigada do Sagrado Divino Espírito Santo.”

Volnei Martins Bez
Valmiré Rocha dos Santos

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